14/08/2020
falta-me a tua alegria
Sinto a tua falta mais que nunca. Ainda habitas este mundo trágico, mas ao mesmo tempo é como se já não tivesses presente. Estás completamente agarrada a essa cama sem uma réstia de vida e porquê se naquele dia apenas íamos ao encontro do avô para lhe deixar flores e limpar-lhe a casa que habita em espírito. Era um bom dia e de reencontros felizes. Mas as únicas lembranças que ficaram desse dia foi o aparato de entrar pelas urgências do hospital adentro com a esperança que mais uma vida se salvasse. E lembro-me igualmente das tuas palavras: “Eu vou para casa contigo” ás quais respondi: “Descansa! Amanhã venho-te buscar logo de manhã já boa”. As tuas palavras ressoam na minha cabeça cada vez que penso se não teria sido a melhor opção depois do nada que te fizeram para te salvar. E dói-me deduzir que talvez te tenha roubado um fim digno com a decisão que sobrepus à tua. Só te queria bem e de saúde. E queria-o tanto que a minha esperança superava cada especulação que os médicos e enfermeiros me iam dizendo ao longo das visitas diárias à tua cama do hospital. Lutaste contra todas as tuas dificuldades adquiridas e conseguiste resultados impossíveis. A cada visita havia uma nova melhoria que me fazia ignorar todas as informações do teu estado clínico. Mas o tempo passa e tornasse um peso custoso de carregar. Sei que sofres mais do que algum dia pensaste e apesar de não falares eu sinto-o no teu silêncio. E dói-me tanto só de o perceber. Desculpa não conseguir matar a dor que tens na alma, que te atormenta e te relembra todas as horas que o teu destino terminará exatamente da maneira que mais temias. Sei que quando deixares de nos presenciar com a tua presença tranquila, em corpo, vais ter o descanso que mereces. E é apenas este alívio que me deixa assolada, mas estável.
Sinto falta de ti aqui em família. Sinto falta de chegar a casa depois das aulas ou do trabalho e estares á porta para me receberes e me perguntares como me correu o dia. Porque afinal de contas foste sempre tu quem estava presente todos os dias, não apenas em visitas de médico em datas festivas ou nas férias de verão da escola quando era miúda. E isso era o que mais importava, a presença. Sinto falta de te desejar uma boa noite todos os dias e ouvir a tua voz como troco. Sinto falta das tuas histórias de aventuras imensas de quando eras catraia. Acima de tudo sinto a casa mais vazia sem ti.
Dizem-me muitas vezes que herdei a maneira de ser do meu avô, até os gostos e o modo de estar. A verdade é que não me identifico com ninguém na família que conheço desde que me lembro de existir. E eras tu, avó, que me acalmavas a ânsia e curiosidade de o conhecer com as tuas histórias sobre o avô, o teu marido, sempre que reforçavam em conversa corrida o quanto éramos parecido e o quanto eu iria gostar de o ter conhecido. E sabes que mais? Fizeste-me querer que sim. Porque o avô sempre será a parte que me entenderia e faria sentir compreendida, mas tu, sem o saber, atenuavas a perda que eu sinto. E agora quem me vai contar as histórias que só tu sabes? Tenho tantas saudades das tuas gargalhadas repentinas à mesa durante a refeição. Tenho saudades que te rias das palermices que saem da minha boca sem qualquer filtro, e de todas as vezes que alinhavas nas minhas brincadeiras mesmo com os teus preciosos 90 anos de menina, como se tivesses a minha idade. Não sei como vou aprender, um dia, a lidar com a tu falta porque nem sequer consigo lidar apenas com a tua inatividade.
04/08/2020
a dú(vida) é a resposta
Quando o poder de viver a vida com que tanto se sonha é roubado para cobrir as necessidades das obrigações como membro da humanidade, de família e pessoa consciente da sua moralidade, ganha-se uma certa repulsa à vida. O medo de dar um passo maior que a perna e sentir a adrenalina de escapar uns segundos da rotina, já não é mais uma ânsia. Os medos desaparecem na corrida dos anos que passam sem que a reforma, de um posto que não se escolhe, chegue. E a indiferença vai crescendo das cinzas da inocência.
Se algum dia tiverem o atrevimento de te perguntar: o que queres da vida? Sê descarado o suficiente para responder que a vida é que quer algo de ti e ainda não teve a coragem de o mostrar. E pouco mais. Porque ao fim de tantas tentativas apenas a resposta que esperamos será o único cenário significante. O antes será apenas experiências que nos guiam à resposta que a vida nos deve mas em nada se esmera em esconder. A ironia continuará a ser uma prevalência na humanidade enquanto permitirmos que nos cegue. Tenho pena de por vezes não ser capaz de ver aquilo que está diante dos meus olhos, que seria um escândalo se um dia soubessem de metade. Não sei se a psicologia tem um nome para esta condição para que a possa categorizar como um distúrbio. Mas a meu ver deveria. Porque todas estas dúvidas geram questões desconcertantes que terminam sempre em "porquê?" ou "será desta vez?".
Todos procuramos respostas às nossas carências mentais, uns mais que outros. Todos temos questões que gostaríamos de ver respondidas ou que tivessem sido feitas no momento oportuno. Todos temos dúvidas que preferíamos que fossem antes certezas. Mas vivemos mesmo assim na dúvida desconfortável porque a certeza é ridícula. Questionamo-nos tantas vezes o porquê da vida, mas no fundo a única explicação que procuramos em todas as perguntas retóricas é o significado da nossa essência. Quem sou eu? Apenas desejamos conhecer-nos com a mesma facilidade com que decoramos os gostos, necessidades, qualidades, afeições e limitações de alguém. Contudo se fosse assim tão fácil o que seria feito dos nossos pensamentos? Não são as respostas que importam mas as perguntas. O mistério está na dúvida, porque quanto maior o número delas mais próximos estamos da natureza substancial do nosso ser.
Apesar de não saber lidar com a dúvida não me incomoda como a insatisfação constante que me ferve as veias. Confesso que me sinto o Álvaro de Campos dos tempos modernos como se o meu estado de espírito andasse na corda bamba entre a fase decadentista e a intimista. Este ênfase à desilusão que permanece e parece não querer terminar leva-me constantemente à mesma resposta insolente - Não Sei! E esta fadiga que a vida assumiu como minha é o prémio que se tornou mais um problema que um consolo. Como vou chegar a mim se não tenho a energia para chegar até lá? Como vou saber quem sou se não sou capaz de descodificar o que sinto, cada vez que me sinto?
Por vezes dou por mim a perguntar-me o que teria sido de mim se tivesse tido a liberdade emocional e moral de poder viver os meus sonhos para além do hipotético. Não consigo evitar de pensar nos cenários que não tive oportunidade de viver, nas experiências que podia ter tido, as asneiras que podia ter feito e aprendido. Ainda assim, não consigo ignorar que os valores sob os quais me tento descobrir são fruto da vida que não escolhi, nem sonhei.
Todos os dias vou adormecer a sonhar com a vida que quero para amanhecer fortalecida na realidade que me foi reservada por algum motivo.
08/05/2020
as cartas de amor de ofélia: capítulo 2
Era quase hora do chá das cinco quando tocaram à campainha. Ofélia sai sobressaltada do parapeito da janela, quase a voar pelas escadas a baixo até à porta de entrada, porque àquela hora só podia ser a D. Alice com as fofocas frescas que corriam pela terrinha. Contudo para seu espanto a cara que viu não lhe era totalmente conhecida mas era-lhe familiar. Encaram-se até que Mauro avançou.
– Não sabia se iria bater à porta certa, mas valeu o risco. - Ela anuiu com a cabeça e lançou um sorriso fechado e meigo.
– Desculpe estar a incomodá-la a estas horas, provavelmente está ocupada com as suas tarefas, mas horas antes, quando nos cruzámos e foi muito gentil comigo, deixou cair o seu lenço pelo caminho e vinha devolvê-lo. - Estica o braço gentilmente para lho dar.
– Muito grata. - Pega no seu lenço ao agradecer e aconchega-o contra o seu peito.
– Era uma pena perder algo que estima tanto. - Ela sorri-lhe e ele convenientemente começa a afastar-se lentamente com o olhar torcido para trás e acena-lhe um adeus prolongado antes de voltar a sua face para a frente. Despediram-se sem que fossem necessárias mais palavras.
Assim que fecha a porta ouve a mãe aos gritos da cozinha que lhe pergunta:
– Ofélia? Foste tu que abriste a porta?
– Sim mãe... - Confirma em tom insignificante como se já não soubesse que tinha sido ela.
– Quem era? - Questiona-lhe prontamente assim que sai da cozinha a limpar as mãos molhadas ao pano que trazia pendurado no avental e fica a encará-la para não lhe dar hipótese de mentir. Ainda assim não foi suficiente para a contrair à verdade.
– Não sei mãe, não conhecia... Queria só algumas informações.
– E tu o que é que disseste?
– Olha... disse-lhe que fosse à mercearia do Sr. Alberto ali ao final da rua que talvez lá o pudessem ajudar.
– Fizeste bem filha, agora anda aqui ajudar a mãe a servir o chá.
Depois daquela mentira, que não era nada dela, mas contar a verdade à sua mãe estava fora de questão, até porque ainda não sabia ao certo em que problemas se estava a meter, foi preparar a mesa da sala de estar para o chá. E fê-lo primeiro porque não podia ser desagradável com sua mãe e negar-lhe a ajuda que precisava. E em segundo porque deixou de navegar na sua imaginação cheia de possibilidades aliciantes e caiu em si. A verdade é que não sabia quem ele era, nem de onde vinha, se iria ficar ou se estava apenas de passagem, se tinha objetivos de vida tão altos quantos os seus ou se estava a sentir a mesma energia que ela, apesar de achar que estava. Ela não sabia nada sobre ele, além do que conseguia ver e do pouco que pôde testemunhar naquele dia. E isso era um problema. Aparentemente ele era gentil e cavalheiro e bem parecido, o que o tornava ainda mais intrigante. Era fácil de cair na tentação de gostar da possibilidade de ter alguém ao seu lado com essas características e apesar de Ofélia ser romântica por devoção, não romantizava a vida por saber o quão perigoso poderia ser confundir a sua imaginação com a realidade.
– Já terminei de preparar a sala, precisas de ajuda em mais alguma coisa mãe?
– Sim! Leva a bandeja que está em cima da bancada para o centro da mesa da sala, mas cuidado... - Diz sem tirar os olhos do que estava a fazer, completamente desorientada e sem mãos a medir nas tarefas que parecia querer terminar todas em simultâneo.
– Porque é que vamos utilizar a bandeja de prata? Qual é a ocasião especial?
– Algo me diz que vamos ter visitas e boas notícias. - Ofélia fica meio embasbacada e estática receosa que a mãe tenha percebido que lhe tinha mentido. Alzira, sua mãe, vira-se para a filha ao detectar que não estava a fazer o que lhe tinha pedido e diz-lhe de braços cruzados: – Mexe-te Ofélia e faz o que te pedi por amor a Deus!
Enquanto Ofélia fazia a sua tarefa a mãe voltou-se para a bancada da cozinha para preparar uns biscoitos que iam acompanhar o chá. Juntou os ingredientes todos numa taça e ao começar a misturar lembrou-se que não tinha posto ovos. Nesse exacto momento Ofélia regressa novamente à cozinha.
– Chega-me três ovos. - Exige prontamente.
– Queres que mexa para ficar bem misturado? - Parte a cascas dos ovos na beira da taça e despeja-os para dentro dela sincronicamente com a sua pergunta.
– Não é preciso filha, mas obrigada! Mas podes ligar o forno à temperatura de 180 graus para pré aquecer e depois vai pentear esse cabelo que está todo irrisado.
Ao subir as escadas para se ir arranjar para as suposta visita misteriosa escuta uma voz ao longe que dita:
– Diz à tua irmã também para se arranjar e para vestir o vestido verde de cerimónia.
– Está bem mãe! - Grita-lhe a meio da escada enquanto revira o olhos.
***
Não sentia ciúmes, mas tinha perfeita noção que Irene era a filha favorita lá de casa e por vezes algumas ações por parte de seus progenitores conseguiam ser bastante evidentes. E sentia-se meio excluída, apesar de, lá no fundo, saber e acreditar que também gostavam dela, não da mesma forma como gostavam da sua irmã, mas gostavam à sua maneira.
Ofélia não tinha amigos e estava quase sempre por casa entretida com os seus livros e a sua escrita. A sua única amiga e melhor aliada era a sua imaginação. Perdê-la e achá-la era encontrá-la deitada na relva do jardim da frente da casa calada por horas de olhos fechados a inspirar o ar que a alimentava. Os pais acomodaram-se ao silêncio da sua presença que nunca se preocupavam em saber por onde andava. Mas quem passava em frente a sua casa e a via ali achava-a esquisita e havia quem a chamava de maluca. Os pais nunca entenderam o porquê de todos olharem para Ofélia de forma diferente, mas também nunca deram importância ao assunto. Eles sabiam de certo que ela era dissemelhante da sua irmã em vários aspetos e isso já bastava porque não lhes agradava. No entanto ela era apenas solitária. O que as pessoas não sabiam é que viajar dentro da sua imaginação era a única maneira de não se sentir sozinha. Ela sentia-se feliz e divertia-se cada vez que mergulhava na natureza e inventava histórias sem fim na sua cabeça. Imaginava-as como se estivesse a assistir um filme no cinema, sentia através delas o que não lhe era possível sentir e viver de outra forma.
***
De repente a campainha tocou e a família Magalhães reuniu-se, antes de abrirem a porta, à entrada quase como em pose para uma fotografia em família.
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