A carta da vida que levo para a vida que sou


Aveiro, 29 de agosto 2017

Vivemos num mundo em que se inventam problemas como se vivêssemos sob marés vivas, agitadas até à morte que sempre me afastaram do amor que trago nas veias cuidadosamente. E é nesta vida que te escrevo e apresso fortunas, porque a vivo e não a quero nem morta. Sempre foi assim que me viu, como um rato de laboratório, com vida limitada pela sorte do destino à espera que o dia de amanhã ainda pudesse existir. E o tempo. Esse sempre foi o dilema às suas ideologias. Os cinco minutos para respirar e os dois para aliviar as ideias eram a base das contradições que nunca lhe couberam eficazes. Sempre que podia, e podia dia a dia mais do que eu pudesse achar que poderia conseguir, carregava-me (que nem um burro) de tudo o que queria e eu não queria. Os sentimentos passavam leves e breves como se tivessem maratonas para abater, mas as portas do destino não tinham nem tempo nem pressa, eram apenas sentimentos vagabundos que deambulavam de ar em ar. Já não era de espantar, eu já não o achava fazia décadas, mas sempre que se entranhavam por perto era garantido que me fazia ganhar mais um. Era só mais um. (Sempre foi só mais um. E na verdade era, mas um de cada vez. Acho que era isso que me mantinha presa neste círculo vicioso e medonho. Era esgotante a pressa que se via passar, já para não referir a extrema arrogância dos olhares...) Se ao menos me tivesse dado almas cativas ou livros, mas nem isso. Dava-me misérias atrás de misérias sem nunca ter pedido rigorosamente nada, em troca de satisfação própria e a preço de tuta e meia. E para quê? Ainda evito pensar como seria se fosse a meu preceito. 
Obrigou-me a diagnosticar ponto a ponto cada travo, cada possibilidade e ainda exigia relatório final, para que nada pudesse falhar, como se o que já tinha vindo não fosse suficientemente constrangedor. Inacreditável. Não havia tempo sequer para sentir, acompanhar vidas propícias, manter sensações e retribuir por igual. A mecânica da vida que me deu não tinha mais espaço (nem nunca teve) para esperas - os sonhos ficaram esquecidos e as experiências paradas no tempo. Não me dava hipóteses, mas o vazio pela desilusão de nunca ter tentado fugir, tornou-o na oferenda que não quero, que me lembra a idiotice, que me espanca forte e feio sem possibilidade de fuga, isso já lhe era certo. E a mim também. Não entendo como deixei que todo este tempo me roubasse o sossego que tanto me diz e lhe digo. Até mesmo o desassossego que acalmo vivasmente entre dias interrompidos pelo espírito que fecho dentro de mim, me roubava, pouco a pouco, quando mais precisava de viver. E de que me serviu? Continuava a entregar-me ás merdices do novo como se tivesse implorado por uma vida que idolatrava, por uma vida que não me vestia. Não era. Não a via. Pelo menos por aqui. Depois de tudo o que abdiquei de mim por isto, não quero e não posso continuar a acreditar que o mundo é esta bola turva, trancada que não tem espaço para humanos ao invés de máquinas em forma de gente. Hoje chega de ser quem não sou na esperança que o sacrifício me dê a vida que quero ser.

Com amor, a tua ex-cubaia.
P.S.: Escreve-me um dia destes...

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