Abracei-me mais que alguma vez me teria visto


Desperdiçar noites a olhar para o céu e tardes de inverno sentada à beira-mar a ouvir as ondas vaguear embaladas em ventos indecisos - são como sonhos perdidos em marés cheias (de segredos e abraços). Mas os sonhos, na verdade, estão nas calçadas que pisamos todas as manhãs apressadas e atrasadas no tempo, nas tardes que conseguimos despachar o assunto do dia, antes que o dia nos despache a nós sem o assunto cumprido. E nas noites frias, amenas e insuportavelmente quentes, onde os minutos não são menos que 24 horas feitos em encontros com a tenacidade da vida, tornando-se veículos do irreal. Ironia da vida é nada mais que o tempo. Carrega-nos na realidade do viver com o intuito de acreditarmos que os sonhos vêem logo de seguida – “com o tempo” dizemos nós, sempre que possível, e acreditamos na estupidez das nossas palavras incrédulas. O tempo corre que é uma coisa por demais. E ainda assim, é coisa que nunca será, porque se o tempo fosse tempo não haveria horas, muito menos relógios a enfeitarem pulsos fracos e paredes astuciosas. Se tempo fosse realmente tempo haveria vida ao invés de sacrifício em prol da sobrevivência. Não se vive de tempo, não nos basta, nem nunca nos será capaz de abater as lamúrias. Somos inteiros e o tempo passa por horas e meias horas e a ambiguidade de abafar espaços que não nos preenchem, a complexidade da tónica tempo versus pessoa é a maior das ironias e das impossibilidades por isso mesmo. Não nos compete sabermos ser apenas por metades, pertence-nos a sabedoria de saber estar em verdades por completo, para que o meio-termo se conjugue no seu ideal entre verdades opostas.

Assim estou nas oportunidades como estou em mim, mesmo se não existisse, porque à hora e meia, acrescentam-se mais umas poucas – Assim será, e sempre foi. Hirta dos pés à cabeça, mas do que vale pensar sem sentir. Do que vale ter tempo se não o sabemos contar. Os sonhos aparecem na encruzilhada de saber sentir o que nos faz pensar, no exato momento em que as oportunidades devem ser agarradas. E assim se espera, sem tempo, que o tempo nos traga a alegria e os sonhos, entre as ruas que andamos banalmente sem saber a inteligência que nos guardam. Mas é ali que nascemos vez a após vez na esperança vitoriosa de erguer a voz sem a termos. Detemos mais amores que consideramos ser capazes de atingir. E é por isso que eu gosto de caminhos desconhecidos, de calçadas deformadas e carregadas de altos e baixos, com raízes mal tratadas e folhas servidas de cama aos pés caminhantes. De olhos postos no chão e de pés descalços. A alegria de chegar a casa conta-se nas passadas de me encontrar em qualquer lugar.

No instante em que caminhei no sentido contrário dos ponteiros do relógio, senti-me por cima das nuvens. A saudade vincava os paladares tórridos da amargura onde as neblinas se faziam sentir insanas. O céu enchia-se de vazio, destilavam-se pensamentos pairados por aí fugazes e trémulos, que se estranhavam na obscuridade fraudulenta do primeiro instante, que rapidamente se tornaram familiares aos olhos e aconchego ao corpo. Foi como se não necessita-se da vida – fui tempo por minutos. Não perdia, nem ganhava, controlava. O poder de olhar para além dos silêncios enigmáticos que vivem por mim, as misérias que me tornam alguém entre muitos – via-me num espelho baço sob os recantos que não conhecia em mim. Brutalmente desconcertante, quando, apesar da conceção, aprendemos que nunca nos conhecemos num todo, nem nunca o conseguiremos. O ar faltava-me, mas não me preocupava. Tempo vago sufoca, mas tempo vasto mata. Sentir na pele o esforço rasgar-se ao segundo contaminava a transitoriedade falecida no engano da realidade. Gelava a pés juntos. Juro. Abracei-me mais que alguma vez me teria visto.

5 comments:

  1. O tempo pertence-te e nunca o contrário... desde que nunca encares os segundos como sobrevivência mas (Sobre)Vivência!!

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  2. Vivemos numa sociedade que preza a ocupação constante e determinismos. Se decidiste fazer algo naquele dia e não fizeste sentes-te culpada, como a igreja católica tão bem nos ensinou. O tempo é teu para viveres uma vida feliz, não o percas com dor.

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  3. Ahaha, Inês, levo sempre o máximo de máquinas fotográficas que consigo!
    Como sempre, esta publicação <3

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  4. Do que vale ter tempo se não o sabemos contar... Fico cheia de alegria de saber que ainda pairam cá pessoas que escrevem. Que sabem ler a vida. Que conseguem captar os tempos dentro do meio tempo. Continuaremos a caminhar em caminhos desconhecidos.. Só na perdição do que somos encontramos os sonhos que falas dentro de um tempo que não precisamos ter medo.

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