19/01/2019

1+3: medo


Quando aceitei começar este desafio prometi a mim mesma que ia ser o mais profundamente sincera, portanto vagueei por vários dias pelas minhas fraquezas até perceber o que é que me deixa genuinamente apavorada. Todos nós temos os nossos medos "pequeninos" e fobias que suportamos até determinados limites. No entanto, com um tema como este que as variáveis podem ser enumeras (porque todos somos diferentes), ainda assim facilmente seriamos capazes de nos repetirmos. Apesar da lista de medos que existe espalhada pela humanidade, temos muito mais em comum do que imaginamos - até porque um medo nunca vem só. Eles juntam-se em grupos como se fossem colegas de escola. E portanto eu quis mais. Quis chegar a algo que caracteriza-se a minha fragilidade, fosse o motivo do meu comportamento face a escolhas difíceis ou decisivas. Quis perceber o que me faz mover por meios seguros para não ter que encarar de frente com assuntos que ensurdecem os meus pensamentos.

Durante o processo de reflexão percebi que usamos a palavra - medos - de um modo geral e aleatória, onde encaixamos uma colectânea de sensações que gostamos de manter longe. Repulsa, Receios e Apreensão. Aparentemente parecem apenas sinónimos, mas aplicados e visualizados no quotidiano fazem-se sentir de forma diferente, transmitindo-nos sinais que nos permitem distingui-los. Para mim a Repulsa é tudo o que não conseguimos tocar e nos mete nojo só de estarmos a observar. Os Receios é uma sensação acompanhada principalmente por incerteza, como se tivéssemos num limbo a tentar manter o equilíbrio, porque a pressão do momento dificulta-nos a capacidade de escolha (e como qualquer ser humano, queremos sempre fazer a escolha certa. Está intrínseco na nossa genética, não há como mudar, podemos tentar o que quisermos, vai voltar sempre ao ponto de partida). Sinto que os receios estão muito mais ligados a decisões físicas - por meio da tentativa -, do que a decisões interiores, psicológicas. Já a Apreensão, em contrapartida, está muito mais associada a ocasiões psicológicas. Isto porque, provoca sentimentos mais fortes (como ansiedade) e tende a moldar-nos a nossa maneira de pensar, nocivamente. Vou dar um exemplo: Com o começar do novo ano defini um objetivo pessoal - ser mais atenta ao meio que me rodeia e assim criar ligações mais fortes com as pessoas. Apesar de ser um processo longo e trabalhoso é também um processo que vai gerar muitas dúvidas e crises de identidade, porque a mudança não ocorre repentinamente e os sinais físicos, que acalmam a ansiedade, são raramente visíveis. O que nos leva a pensar que somos incapazes de continuar - o tal pensamento nocivo evidenciado! - que muitas vezes nos leva a querer desistir.

E portanto o meu maior medo, que me deixa a pensar por horas e a duvidar de mim por dias, não posso afirmar propriamente que é a efemeridade da minha presença na Terra, mas o término da mesma sem que tenha a oportunidade de construir algo ou fazer parte de algum acontecimento que me satisfaça por inteiro. O facto de um dia não conseguir ter a sorte de sentir que o meu propósito aqui foi cumprido faz-me duvidar muitas vezes se estou a seguir o caminho certo. E esta sensação de não saber se vou ser capaz de chegar a um propósito que me satisfaça, provoca-me medo da morte - é como a falácia "Bola de Neve" que aprendemos durante o secundário em filosofia.

O desígnio da vida está exactamente na sensação surpresa do desconhecido. Tenho noção disso! Mas todos nós sabemos que muitas vezes as noções que temos nem sempre vão ao encontro dos nossos comportamentos. E apesar de, por vezes, me deixar levar pelo flow e tirar o proveito possível do presente - à minha maneira -, prefiro mil vezes saber com o que conto. Embora abrace sempre a mudança com um carinho muito especial, a incógnita permanente de um futuro que não sei qual será e portanto não sei se sou capaz de o construir é algo que vai muito mais além das minhas capacidades de compreensão e aceitação. Deixa-me nervosa. Ansiosa. Talvez um dia consiga perceber a beleza de não sabermos se chegamos a viver a sensação de propósito cumprido, mas agora é apenas uma ideia que me assusta. Bastante.

4 comentários:

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    1. Sempre tive a filosofia que: partilhar é viver. E quando somos capazes de partilhar abertamente os nossos medos, ganhamos a nossa liberdade e deixamos de viver em sobressalto! Obrigada 😊

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  2. Bem, que publicação. Gostei muito da forma como abordaste este tema e da forma como separaste os conceitos receio e apreensão.
    De facto, o teu medo é comum a muitos de nós e acho que todos em determinada altura sentimos isso, o não sabermos qual o nosso propósito e se iremos cumprir tudo que ansiamos neste momento. Isso assusta, porque o desconhecido é um mistério e o não saber, ainda que a imprevisibilidade seja a beleza da vida, faz-nos tremer.
    A uns mais que outros, mas é um medo (tal como todos os outros) tão válido.
    Atá lá, vais lutando, vamos lutando pelo que acreditamos e construindo caminho por aí fora :)
    Gostei muito.
    Beijinho

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    1. Existem dias que parecem tão próximos, mas outros completamente cobertos por uma nuvem imensa que ofusca até os pensamento. E a possibilidade categórica de um dia vir a acontecer deixa de ser possível ser visualizada na minha cabeça. É assustador! Mas o truque é esse mesmo: acreditar e ir construindo caminho. Nunca se sabe o que podemos encontrar.
      Obrigada pela tuas palavras!

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