histórias

20/10/2018

as tuas últimas palavras


Se estás a ler esta carta é porque morri mas também porque foste uma das estrelas da minha vida. Em morte não sei se vou ter estrelas mas não precisas de te preocupar, eu vou estar bem, porque não houve nenhum dia em vida que me sentisse incompleto. Tive gratitude suficiente para perceber que nunca temos tudo, mas também tive a força de vontade o suficiente para ter tudo o que quisesse. E aceitar o destino que nos espera após a nossa parte feita sem retaliações e desígnios para com o que aí vem, em qualquer circunstância, foi a minha salvação. Os remédios que o Dr. Alfredo me deu não me iam salvar nunca na vida, e tu sabias disso, só querias acreditar na fantasia de uma possibilidade efémera e singular como um milagre na medicina em tempo de peste negra. Impossível. Nem os milagres vão tão longe. Senti-mo-nos fracos e indefesos ao saber que não podemos controlar o destino, mas viver é aproveitar o sol e o vento que nos entrelaça o cabelo em nós, mesmo sabendo que o passo seguinte é uma constante incógnita e quanto mais cedo aceitarmos que a mudança faz parte daquilo que seremos amanhã, mais cedo conseguimos viver com o que somos hoje e rir do que fomos ontem.

Nem sempre fui feliz, nem estive sempre triste, mas quando o estava abraçava os dois estados com a mesma compaixão, com o mesmo olhar apreciativo - sentir amor, não é só dar as mão, ouvir umas palavras bonitas de alguém - aceitar sentimentos tão fortes como a plena felicidade e tristeza também é amor. Um amor muito maior. E é preciso termos a capacidade para nos sentirmos e mostrar-mo-nos confiantes dentro da nossa própria vulnerabilidade, porque se nunca tivesse tido o medo de arriscar a minha vulnerabilidade para obter o meu próprio amor, nunca teria tido um amor tão grande e tão leve como o nosso amor. E sabes que te amava tanto quanto me amava a mim - sempre que nos ouviam falar assim soava a mentiras por parecer tão fútil da minha parte. Mas tu sabias o quanto isso significava para mim e para ti. Por vezes aprendemos que devemos contabilizar não pela quantidade mas pela intensidade e se uma coisa que o nosso amor tinha era intensidade - nunca te esqueças disso. Eu gostava do lado da razão e tu do lado filosófico da vida, o que eu não sabia é que na maioria das vezes não se tratava de ter razão, mas da perspectiva em que vemos as coisas. Ensinaste-me que nada tem apenas um lado, uma justificação ou uma perspectiva e que cada um de nós escolhe uma idealização como a sua verdade por quererem acreditar exactamente naquilo que pensam que ouviram ou viram. A partir daquele dia abafado dissipado à beira do lago, percebi que podemos transformar o Mundo no lugar que quiséssemos, bastava acreditar que o era. A bondade e simpatia das pessoas estava nos nossos olhos e a alegria nos nossos pensamentos. Ter a esperança sobre o outro ajudou-me a ver o lado bom das pessoas e agradecia todos os dias por me teres transmitido este dom meu amor. Não existia beleza maior no Mundo do que sentir que a nossa energia positiva contagia alegria em outros e em ti. Vou-me sempre lembrar desse teu sorriso encantador que não deixava ninguém indiferente - não há como esquecê-lo.

Foi bom enquanto pude chorar e sorrir por aí. Vou ter saudades de viver e de ti. De todas as pessoas que amei, foste a que mais me custou deixar. Não por mim, mas temo por ti.

P.S.: Não te feches dentro de ti, permite que o Mundo te veja. Há tanto por ver, acredita (em ti).

as tuas últimas palavras

02/04/2018

a vulnerabilidade de um talvez


Não sei se te quero amar ou se talvez já te ame e não consiga admitir que assim o teve de ser por feito do destino. Mas tenho certo que não te quero por enquanto – é egoísmo aparente da minha parte, mas faço-o para segurança tua e nem percebes, porque nem tu próprio sabes o que te sobra nas veias, que te carregam o júbilo da vida que resguardas sem rodeios e preocupações. A tua audácia desmedida transborda-te sempre pestanejar duas vezes e preocupa-me a ignorância que aparentas na tua própria inteligência que não consegues destinar como cais sendo parte do teu ser. Preocupa-me acima de tudo o fracasso que podemos conjugar enquanto nos tentamos completar mutuamente. E se te der um talvez começo na incerteza de um fim que não se vê e um começo que não se compreende. Talvez não se adequa nos teus olhos, mas cobre a minha pele. Pode-te soar estranho, mas a vida é feita de incertezas cobertas de começos abandonados sem sequer serem vistos em palmares de primeira ordem. As incertezas sempre foram o início da humanidade, do amor em volta dos colarinhos e entre o cruzar de mãos, das flores que crescem para fazer sorrir os campos e as mulheres. O talvez sempre será do mais certo, o começo da liberdade e o fim da inocência, a possível sensação de percecionar o amor olhos nos olhos, sorrisos e gargalhadas. Talvez não dá sinais, vive no deslumbre de quem o consegue ver para além de um corpo vazio deitado num campo verde, o consegue sentir entre as palavras que não se dizem no ruído do silêncio de um olhar pleno. A vida é feita de incertezas porque ninguém o sabe até que aconteça – talvez é quando menos se espera e não tem de rimar com o objetivo inicial, podem-se mudar trilhos, contextos e emoções. Porque o talvez é o caminho para o certo de cada momento, mas nunca o definitivo.

E no meio toda este azafama há sempre quem nos deva e quem nos devolva. É tão (in)certo como um talvez. E quem nos deve nunca nos chega a devolver o pouco que nos levou. A vida deixa-se esquecer, mas nós lembramo-la tantas vezes quantas nos lembrarmos – por quantas dores nos fizeram aborrecer. O vazio fica. Silencioso. Aguarda e espera, mas sabe que não será mais nada para além de eco. Quem te devolve, dá sempre mais do que deve, porque sente ser sempre pouco aquilo que dá, devido à incerteza que vive. Por medo, por achar saber que nunca será suficiente. Mas o desafio é superarmo-nos cada vez mais a cada dia ao invés de tentarmos ser melhor que os outros. Ser-se o melhor de si todos os dias é viver-se sobre os encantos de um talvez que contrariam um “e se…”.

a vulnerabilidade de um talvez

08/11/2017

ruas, ruelas e esquinas


Uma cidade é um poema cheio de ruelas e desgostos. E estas ruas que passo raramente, trazem escrito nas paredes das casas o quanto gostei de ti, o quanto gostaste de mim. Tenho pena, não de ti, não de nós, mas do nosso amor por o termos incentivado ao suicídio. Não lamento ter-te perdido, porque continuas por cá (se há coisa que me ensinaste foi que o amor acaba mas nós continuas vivos). Nem me arrependo da oportunidade que a vida nos deu. O nosso amor foi exatamente o que tinha de ser, no momento em que teve que acontecer e durou tanto quanto nos amámos. E isso é amor. Ninguém nos poderá apagar da história quando fizemos questão de apenas amar mutuamente e genuinamente o que não víamos e não gostávamos, para além do que sempre soubemos, numa certeza garantida, que teríamos para acariciar. Contigo aprendi que o amor bom e genuíno não tem que durar a vida inteira, apenas enquanto existir. É vulnerável mas bonito. Aprendi a amar-te de um modo limitado como se o tempo não existisse e o suficiente tornou-se a vida que todos querem. Tornou-se o suficiente para continuar a amar o que fomos, sem haver somente a necessidade de odiar a razão que nos levou a deixarmos de ser. Hoje sempre que por ali passo, sinto que a cidade ainda é nossa, as paredes contam histórias de todos os tipos, mas para mim sempre será a nossa que ecoará mais alto. E sei que para ti também.

ruas, ruelas e esquinas

13/09/2017

o peso de amar


Viste-me quando ninguém me via e ali estava aos olhos de quem quisesse olhar ou no mínimo das hipóteses reparar. As minhas energias falharam com a tua proximidade, por coincidência, ou prefiro achar que assim o foi. Tremia cheia de sorrisos miudinhos e perdida de nervos. Era certo e mais que sabido o que se seguia - o meu corpo não suportou a oscilação. Insististe. Tanto que insististe que também quis agarrar sem olhar para trás dois segundos e possuir esse amor que trazias anunciado por todo o teu jeito engraçado, por todo o teu corpo bem recortado. Parecia-se uma realidade que não me cabia por desdenho ou falta de tempo - oh tempo, perdoa-me mas desta vez terás de ter as costa largas, novamente; era surreal mas estupidamente meu. 

Quanto mais depressa me conseguias decifrar, mais depressa fugia. Não percebia essa tua capacidade de compreender as pessoas num piscar de olhos, mesmo quando nem pestanejavam. Eras imprudente demais para as minhas poucas capacidades e isso assustava-me mais que qualquer outras coisa. A tua intelectualidade emocional dava-me arrepios sempre que te sentia por perto, sempre que me rodeavas de abraços. Era bom mas tinha medo do que pudesses ver que eu nunca tivesse reparado em mim. O receio de me conheceres melhor que eu mesma dava-me insónias de semanas inteiras a matutar no que seria que estarias a pensar quando era eu quem te acabava por ocupar os pensamentos, no que seria que terias visto e não me tivesses dito com receio da resposta que terias devolvida. Não suportava saber que me conhecias a quilómetros de distância quando mal te conseguia olhar nos olhos a milímetros da tua cara. Não vou mentir, mas também não confirmo. Foste diferente e sabes quanto isso me agrada. E quem me dera que não soubesses, porque talvez ainda hoje me surpreenderia com o que dissesses. Foste perito no que toca a aparências enquanto me tornava hábil a amar o que não tinha. Deixavas-me completamente à toa, depois de tantas vezes te ter pedido para não o fazeres. Mas continuavas a confirmar constantemente a ideia de que tudo seria possível se quiséssemos - logo eu que nunca quis menos. Já era tarde. Deixaste-me frágil e mudaste de vida.

Sem ti percebi que somos apenas almas perdidas à espera que alguma amor nos cure.

Que nos cure muito antes de chegarmos há necessidade de fugir do ar sufocante, que nos faz sentir que pelo menos o choro apaga o vácuo por meros instantes. Não sei se as pessoas se tornam tristes com vocação para serem alegres ou o contrário. Afinal, o amor nunca me levou por completo o vazio que acarto, e sei-o porque o sinto dia a dia a percorrer-me como sangue grosso de sensações distintas que procuram o reverso de si. Tenho sempre algumas tristezas nas minhas alegrias e algumas alegrias nas minhas piores tristezas e, ainda é na tristeza que sempre presencio um encanto que nunca saberei explicar, porque em verdade dita, sinto-me melhor quando me aborrece a alma. A solidão emerge na escuridão - e que bem sabe estar num cantinho escuro de vez a vez na companhia da tua própria presença - e por si só vê-mo-nos em espelhos de vidro cristalino sem que nos ofusquem, à mínima oportunidade com filtros humanizados; assistimos ao deslumbre dos nossos filmes sem arranjos imprudentes que acabam com aquilo que somos e nos entregam àquilo que nunca seremos. E ainda assim, não entendo como o amor nunca nos cura. O amor enche-nos o tempo de promessas para que o tempo passe sem nos apercebermos que o vazio se mantém no mesmo lugar. Logo promessas. Como se alguma vez fosse haver tempo que chegasse para elas. O amor engana-nos quando as promessas que nos mantém vivos terminam e a certeza do tempo que se torna infinitamente pequeno, mata-nos mais do que nos cura.

o peso de amar

22/07/2017

de(lírios) a florescer nas artérias


Por vezes sinto o norte a aproximar-se, quando a escuridão da noite acaba por cair sob os meus ombros, em peso bruto. Pesado e estonteante. A esmagadora solidão faz-me acreditar que o céu, no seu infinito, desliza por debaixo dos meus pés, como se andar, de cabeça na terra e pés ao ar, acomodasse-se banal. E é aterrorizador como o universo conspira em todos os sentidos que inspiramos: solenes (amar)guras. Nestas alturas a agonia faz-me desaparecer entre os desejos inacabados e as memórias que jamais farão vida presente. O passado encaminha o futuro e molda o presente sempre na esperança de se continuar a edificar verdades que não se baseiem apenas em falsos princípios. Acredita-se que não servem somente para preencher as desgraças, mas também para se fazerem vingar na história. Envolvem-se dentro de mim, com tudo o que são, com o que as posso fazer ser, metaforicamente, com o tempo as memórias oferecem-nos as origens que esquecemos. Talvez não será o certo o correto, talvez haja uma similaridade entre o errado e a existência.

A vida é um contraste. Um contraste visível a preto e branco, como sim e não, amor e ódio, paz e guerra. Só se aplaude a democracia que votamos. Mas o medo consterna-se quando menos se espera e os aplausos abafam a nossa liberdade. Não tenho medo de ter medo, tenho medo de olhares, de bocas que não falam e gritam para dentro das suas entranhas venosas; Eu não tenho medo de pessoas, tenho medo da finitude a que as pessoas chegam pelos seus delírios caprichosos, pelas suas rubricas maliciosas e pelos seus medonhos bens sem fins. É correto. A vida é imprecisa. Mal se sabe de que cor são feitos os bancos em que esperamos o tempo. Mas a incerteza não tem de ser a partida do ódio comum. O tempo que vai passando e se carrega dentro da algibeira, à mercê dos nossos dilúvios, é a sombra que não olhamos, mas que nos guia o caminho do silêncio sem que se saiba. A vida é imprecisa por corrermos montanhas e vales, enquanto a loucura que nos cura, deste tempo cheio de pressa, está num olhar cerimonial com o que nos mantém na terra, o céu. Por vezes a espera torna a eloquência um desespero, mas preferimos continuar a caminhar ao encontro das estrelas, como se algum dia as pudéssemos desejar ser nossa casa o que é do mundo.

Frustrações diárias, constantes e brutais fazem os meus dias comuns.
Mas em caso, não me levem tanto à morte, nem me tragam tanto à vida.

Pois há uma linha muito ténua entre o que achamos sanidade e o que achamos loucura. E o esforço que fazemos para permanecer no lado são só é feito para que não sejamos punidos. Senão, frequentemente iríamos cruzá-la e tudo seria mais interessante. É na fronteira destes extremos contraditórios que as lágrimas consomem os olhos, quando vêem os pés fugirem do chão gélido sob texturas amargas, a cada passo mais precoce, atrevendo-se há longevidade casual. É nesta tristeza vaga que se sublimam lagoas, quando as manhãs são noites e as noites se igualam a dias, quando o olhar tropeça na dormência da expectativa. Despejamos o tempo como se não passasse entre linhas cegas. Com o decair da vida deixamos de olhar por completo, aprendemos a olhar de olhos fechados. E acaba por ser neste semiconstrangimento que a vida respira e o corpo congela a cada catástrofe estridente da guerra entre o existir e o não querer. Ignorância esta que me cobre e sufoca os pulmões amargamente de tal modo que perco o norte. A bússola que há em mim deixou-me sem destino. Não sei se cale se abale a minha existência do pouco que me sobeja. Desanima-me não saber para onde me virar, onde ficar, onde respirar. Se antes o sabia, agora não me reserva a mesma certeza. Sinto-me a fervelhar de insanidade que me corroí a carne e me deixa gravemente em ossos argutos. A dor é nada. Grito e nem respiro. Fico, por aqui, até que consiga respirar sem asfixiar em aglutinações incertas de uma vida farta.

(Farta de mim que não existo).

Sou. Fragmentos "vazios", pontos que tanto fui como serei e não sou em noites de vácuo intenso que violentam os meus pensamentos em troca da nudez de sentimentos sensíveis. Choro em água seca ao perceber, ontem, que o caminho que me leva até casa nunca me engana.

de(lírios) a florescer nas artérias

04/08/2016

desejo que me queiras


E mais que amar, há aquilo que somos, aquilo que queremos.
Por muitas mentiras que vejo passar diante os meus olhos dia a pós dia, acredito que ainda nos resta uma mão carregada de meia dúzia de verdade. Uma verdade que nos conhece até ao âmago das nossas próprias incertezas, que nos transparece a essência do nosso ser sem que nos permita questionar o porquê de sermos quem ou como somos, que não nos deixa sequer enganar aparências com gestos e palavras fantasiadas. Acredito, ainda, no verdadeiro sentido do genuíno, e acredito ainda mais que todos o temos. Nem todos nós o conhecemos. Mas acredito. E sei que acreditarei até prova em contrário. Porque melhor que sentir amor no decorrer do que somos é sentir que podemos ter o controlo do nosso amor, sentir que temos meios de opção sem depender de terceiros. Vivo numa de querer, por saber que pelo menos não caio em rodeios manhosos e cantigas mal engendradas, vivo assim por saber que as mentiras serão apenas as que permitir entrar, porque o que resta não pertence a mais ninguém senão a mim.

E mais que amar, há aquilo que desejo, aquilo que alcanço.
Desejo que me queiras sempre que te vejo...
Que me queiras falar;
Que me queiras conhecer;
Que me queiras ver sorrir;
Imagino que o meu amor seja o menos óbvio, o mais confuso, o menos apetecível a uma visão de primeiro impacto. O meu amor não será nada do que imaginas, mas será o que quiseres. Não vou precisar de flores ou chocolates, não vou querer grandes surpresas, mas se assim for, tanto melhor. Só quero que me fales quando não conseguir controlar os nervos e parecer pior que uma grafonola, que me fales baixinho ao ouvido quando os meus olhos vidrarem no silêncio, que grites comigo quando quiseres dizer que me amas. Só quero que me conheças por apetite próprio, que me conheças pelas estações do ano e pela temperatura do dia, só não quero que me conheças se for para me esqueceres uma semana depois de nos casarmos, quem sabe se em menos tempo. Não quero que me conheças as manhas nem os olhares, mas quero que me conheças os passos e as meias palavras. Só quero que me sorrias, que me queiras ver sorrir, que me peças um sorriso ao invés de um beijo, que me consigas ver sorrir até nas profundidades dos meus súbitos desesperos (e vão ser tantos).

E mais que amar, há sempre mais qualquer coisa que queremos.

desejo que me queiras

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