cartas
17/09/2018
a carta que aguarda resposta

Aveiro, 1 de Setembro de 2018
Escrevo-te esta carta na esperança de um dia receber resposta em carta registada e carimbada com selo azul - será bom saber a pressa que tinhas em me escrever, em me fazer saber que existes. Quando a receber não vou saber qual foi o meu dia de sorte e esse é o problema de ir ao correio uma vez por semana. Mas desde à uns anos que assim o é porque receber correspondência pode ser tão emocionante como deprimente e cada vez mais se tornou num sacrifício. Das duas uma, ou tenho o correio cheio de folhetos de publicidade que me fazem lembrar o dinheiro que não tenho para comprar aquilo que preciso ou contas para pagar que me acabam com o pouco das poupanças que me restam ao final do mês, que tento guardar por uma questão de precaução - não sobra nada. E para matar os males que me aborrecem o espírito, sujeito-me a pagar pequenos preços - raramente. Mas quando mandar a publicidade para o lixo, colocar as contas no cesto das dívidas e vir que a excepção assustadora contém um selo azul, vou dançar com a minha alma como se estivesse dentro do meu corpo. Vou jantar e lê-la enquanto sugo estrelas e como a lua.
Vou desejar não te conhecer para te reconhecer pelas palavras que me escreveste, para poder encontra-las descritas nos teus olhos quando olharem para mim e nas tuas mãos trémulas que lutam para saber se podem ou não tocar-me, abraçarem-me. Eu vou saber quem és, pelo simples facto de quem nos rodeia, não nos conhecer e saber que estamos juntos, porque até quem me vir na fila do pão vai saber que te amo. Acredito em milagres e maravilhas no mundo porque Deus e o destino quiseram que o nosso amor se unisse num só e não consigo perceber como algo tão complexo se consegue construir sozinho desta forma. Porque não consegue, só podia existir a força de algo tão superior, para se ver presenciar o que é inexplicável. E como há quem não acredite em milagres como eu acredito - tu. Há quem não entenda a adrenalina que sinto quando ouço o teu nome e há quem nunca tenha sentido a pulsação acelerada com que fico quando vejo o rosto da pessoa que amo a aproximar-se de mim. É complicado saber explicar-te o que sinto quando ainda não te conheço, quando ainda nem sei quais são os teus gostos e se as coisas que me vão enervar um bocadinho de vez em quando, vão ser as mesmas que me vão fazer rir nas vezes que não me enervarem. Não sei se vamos fazer muita coisa juntos, mas sempre sonhei que um dia podíamos ser o tipo de pessoas que transparecem luz genuína. Ainda havemos de conversar sobre os planos que tens para o futuro, se é que tiveste tempo para pensar em alguma coisa ou se vamos levar um dia de cada vez na esperança que as emoções nos tragam leveza a um futuro imprevisível - e quem é que nunca quis um amor leve que nem uma pena. Não sei também se um dia vamos ter filhos ou se será muito cedo para falar do assunto (mas fica a saber que falar de filhos para mim nunca é cedo, é sempre uma miragem bonita), se vamos casar ou se nunca vai fazer parte dos nossos planos por não acreditares em Deus. Se vamos viver numa moradia de dois andares e com piscina ou numa casa rés do chão como sinal de poucos sonhos. Se vamos ter segredos ou se a nossa vida quando vivermos juntos irá transformar-se num livro aberto após uma longa conversa às duas da manhã a observar as estrelas, a falar sobre as nossas vidas individuais antes de nos conhecermos e a comer pipocas em cima do telhado. Se os abraços irão ser para dar à noite e os beijos durante o dia como se fosse uma rotina casual como aspirar a casa e limpar o pó ao fim de semana porque durante a semana não há tempo e porque dizem ser o dia de limpezas só porque dizem que o é. Hoje ainda não sei muita coisa, mas no dia em que apareces vou ter resposta a todas as perguntas que vou fazendo e guardando.
Com amor,
a rapariga que vive nos teus sonhos.
08/01/2018
a carta a um estranho

Segunda, 8 de janeiro 2018
Vi-te passar na rua no outro dia. Não sei se reparaste em mim a olhar-te, e eu também não sei qual o teu nome mas deste-me a sensação de te conhecer a vida inteira. O estranho. É assim que me lembro de ti sempre que vejo passar quem não conheço, sempre que passo aleatoriamente pelos meus pensamentos perdidos no silêncio da noite.
Quando me perguntam se alguma vez sorrio a um estranho, respondo que te conheci a ti. Estavas à distância de um passeio ao outro da estrada, mas foi como se estivéssemos do mesmo lado em direções opostas que nos obrigavam a cruzar olhares intimidantes e tão naturais quanto o inevitável comportamento do homem.
Mas eu estava só, nos dois sentidos mais latos, sentada num banco de autocarro à espera que se fizesse tempo até casa. Enquanto o tempo passava, os vidros ofuscavam-me o olhar entre flashes de supostos edifícios, cores neutras e ruínas de uma cidade pouco nova. O tempo até se passava - o costume; e o rock dos anos 80, que me zumbia nos ouvidos, chegava a animar a um nível satisfatório toda a monotonia da viagem. E de repente apareces-te por breves miragens nos meus olhos a quebrar-me o ritmo habitual e vi-te em plena lucidez por meros segundos. Na rapidez de um olhar certo e instantâneo soube quem eras, davas-me boas energias e não era o barulho da música, eras tu. Perguntei-me o quão cansativo é ser-se genuíno, e perguntei-te a ti: "de que planeta és?". A minha cabeça não soube imaginar o equivalente ao que seria a tua resposta, então fiquei-me por ali. Estava de mãos geladas e com um vidro desembaciado marcado pelas mãos que não sentia. Já não te conseguia ver. Não te vi tanto quanto desejei, mas vi-te e bastou. Só te soube sorrir, mas hoje sei que soube tudo o que bastava. Conhecer-te fez-me acreditar que as coincidências existem e tu foste a coincidência mais bonita que tive.
10/10/2017
a carta da vida que sou para a vida que levo

Terça, 29 de agosto 2017
Vivemos num mundo em que se inventam problemas como se vivêssemos sob marés vivas, agitadas até à morte que sempre me afastaram do amor que trago nas veias cuidadosamente. E é nesta vida que te escrevo e apresso fortunas, porque a vivo e não a quero nem morta. Sempre foi assim que me obrigou a ser, como um rato de laboratório, com vida limitada pela sorte do destino à espera que o dia de amanhã ainda pudesse existir. E o tempo. Esse sempre foi o dilema às suas ideologias. Os cinco minutos para respirar e os dois para aliviar as ideias eram a base das contradições que nunca lhe couberam eficazes. Sempre que podia, e podia dia a dia mais do que eu pudesse achar que poderia conseguir, carregava-me (que nem um burro) de tudo o que queria e eu não queria. Os sentimentos passavam leves e breves como se tivessem maratonas para abater, mas as portas do destino não tinham nem tempo nem pressa, eram apenas sentimentos vagabundos que deambulavam de ar em ar. Já não era de espantar, eu já não o achava fazia décadas, mas sempre que se entranhavam por perto era certo que me espantava sempre sem conseguir acreditar o que estava a ver, era garantido que me fazia ganhar mais um. Era só mais um. (Sempre foi só mais um. E na verdade era, mas um de cada vez. Acho que era isso que me mantinha presa neste círculo vicioso e medonho. Era esgotante a pressa que se via passar, já para não referir a extrema arrogância dos olhares, a escuridão dos caminhos que percorria...) Se ao menos me tivesse dado almas cativas ou livros, mas nem isso. Dava-me misérias atrás de misérias sem nunca ter pedido rigorosamente nada, em troca de satisfação própria e a preço de tuta e meia. E para quê? Ainda evito pensar como seria se fosse a meu preceito.
Inacreditável. Não havia tempo sequer para sentir, acompanhar vidas propícias, manter sensações e retribuir por igual. A mecânica da vida que me dava não tinha mais espaço (nem nunca teve) para esperas - os sonhos ficaram esquecidos e as experiências paradas no tempo. Não me dava hipóteses, mas o vazio pela desilusão de nunca ter tentado fugir, tornou-o na oferenda que não queria, que me lembra a idiotice, que me espanca forte e feio sem possibilidade de fuga, isso já lhe era certo. E a mim também. Sentia-o e não era pouco. Não entendo como deixei que todo este tempo me roubasse o sossego que tanto me diz e lhe digo. Até mesmo o desassossego que acalmo vivasmente entre dias interrompidos pelo espírito que fecho dentro de mim, me roubava, pouco a pouco, quando mais precisava de viver. E de que me serviu? Continuava a entregar-me ás merdices do novo como se tivesse implorado por uma vida que idolatrava, por uma vida que não me vestia. Não era. Não a via. Pelo menos por aqui. Depois de tudo o que abdiquei de mim por isto, não quero e não posso continuar a acreditar que o mundo é esta bola turva, trancada que não tem espaço para humanos ao invés de máquinas em forma de gente. Hoje chega de ser quem não sou na esperança que o sacrifício me dê a vida que quero ser.
Com amor,
A tua ex cubaia.
A tua ex cubaia.
(p.s: Escreve-me um dia destes...)
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