Quando o poder de viver a vida com que tanto se sonha é roubado para cobrir as necessidades das obrigações como membro da humanidade, de família e pessoa consciente da sua moralidade, ganha-se uma certa repulsa à vida. O medo de dar um passo maior que a perna e sentir a adrenalina de escapar uns segundos da rotina, já não é mais uma ânsia. Os medos desaparecem na corrida dos anos que passam sem que a reforma, de um posto que não se escolhe, chegue. E a indiferença vai crescendo das cinzas da inocência.
Se algum dia tiverem o atrevimento de te perguntar: o que queres da vida? Sê descarado o suficiente para responder que a vida é que quer algo de ti e ainda não teve a coragem de o mostrar. E pouco mais. Porque ao fim de tantas tentativas apenas a resposta que esperamos será o único cenário significante. O antes será apenas experiências que nos guiam à resposta que a vida nos deve mas em nada se esmera em esconder. A ironia continuará a ser uma prevalência na humanidade enquanto permitirmos que nos cegue. Tenho pena de por vezes não ser capaz de ver aquilo que está diante dos meus olhos, que seria um escândalo se um dia soubessem de metade. Não sei se a psicologia tem um nome para esta condição para que a possa categorizar como um distúrbio. Mas a meu ver deveria. Porque todas estas dúvidas geram questões desconcertantes que terminam sempre em "porquê?" ou "será desta vez?".
Todos procuramos respostas às nossas carências mentais, uns mais que outros. Todos temos questões que gostaríamos de ver respondidas ou que tivessem sido feitas no momento oportuno. Todos temos dúvidas que preferíamos que fossem antes certezas. Mas vivemos mesmo assim na dúvida desconfortável porque a certeza é ridícula. Questionamo-nos tantas vezes o porquê da vida, mas no fundo a única explicação que procuramos em todas as perguntas retóricas é o significado da nossa essência. Quem sou eu? Apenas desejamos conhecer-nos com a mesma facilidade com que decoramos os gostos, necessidades, qualidades, afeições e limitações de alguém. Contudo se fosse assim tão fácil o que seria feito dos nossos pensamentos? Não são as respostas que importam mas as perguntas. O mistério está na dúvida, porque quanto maior o número delas mais próximos estamos da natureza substancial do nosso ser.
Apesar de não saber lidar com a dúvida não me incomoda como a insatisfação constante que me ferve as veias. Confesso que me sinto o Álvaro de Campos dos tempos modernos como se o meu estado de espírito andasse na corda bamba entre a fase decadentista e a intimista. Este ênfase à desilusão que permanece e parece não querer terminar leva-me constantemente à mesma resposta insolente - Não Sei! E esta fadiga que a vida assumiu como minha é o prémio que se tornou mais um problema que um consolo. Como vou chegar a mim se não tenho a energia para chegar até lá? Como vou saber quem sou se não sou capaz de descodificar o que sinto, cada vez que me sinto?
Por vezes dou por mim a perguntar-me o que teria sido de mim se tivesse tido a liberdade emocional e moral de poder viver os meus sonhos para além do hipotético. Não consigo evitar de pensar nos cenários que não tive oportunidade de viver, nas experiências que podia ter tido, as asneiras que podia ter feito e aprendido. Ainda assim, não consigo ignorar que os valores sob os quais me tento descobrir são fruto da vida que não escolhi, nem sonhei.
Todos os dias vou adormecer a sonhar com a vida que quero para amanhecer fortalecida na realidade que me foi reservada por algum motivo.

Publicar um comentário