Sinto a tua falta mais que nunca. Ainda habitas este mundo trágico, mas ao mesmo tempo é como se já não tivesses presente. Estás completamente agarrada a essa cama sem uma réstia de vida e porquê se naquele dia apenas íamos ao encontro do avô para lhe deixar flores e limpar-lhe a casa que habita em espírito. Era um bom dia e de reencontros felizes. Mas as únicas lembranças que ficaram desse dia foi o aparato de entrar pelas urgências do hospital adentro com a esperança que mais uma vida se salvasse. E lembro-me igualmente das tuas palavras: “Eu vou para casa contigo” ás quais respondi: “Descansa! Amanhã venho-te buscar logo de manhã já boa”. As tuas palavras ressoam na minha cabeça cada vez que penso se não teria sido a melhor opção depois do nada que te fizeram para te salvar. E dói-me deduzir que talvez te tenha roubado um fim digno com a decisão que sobrepus à tua. Só te queria bem e de saúde. E queria-o tanto que a minha esperança superava cada especulação que os médicos e enfermeiros me iam dizendo ao longo das visitas diárias à tua cama do hospital. Lutaste contra todas as tuas dificuldades adquiridas e conseguiste resultados impossíveis. A cada visita havia uma nova melhoria que me fazia ignorar todas as informações do teu estado clínico. Mas o tempo passa e tornasse um peso custoso de carregar. Sei que sofres mais do que algum dia pensaste e apesar de não falares eu sinto-o no teu silêncio. E dói-me tanto só de o perceber. Desculpa não conseguir matar a dor que tens na alma, que te atormenta e te relembra todas as horas que o teu destino terminará exatamente da maneira que mais temias. Sei que quando deixares de nos presenciar com a tua presença tranquila, em corpo, vais ter o descanso que mereces. E é apenas este alívio que me deixa assolada, mas estável.
Sinto falta de ti aqui em família. Sinto falta de chegar a casa depois das aulas ou do trabalho e estares á porta para me receberes e me perguntares como me correu o dia. Porque afinal de contas foste sempre tu quem estava presente todos os dias, não apenas em visitas de médico em datas festivas ou nas férias de verão da escola quando era miúda. E isso era o que mais importava, a presença. Sinto falta de te desejar uma boa noite todos os dias e ouvir a tua voz como troco. Sinto falta das tuas histórias de aventuras imensas de quando eras catraia. Acima de tudo sinto a casa mais vazia sem ti.
Dizem-me muitas vezes que herdei a maneira de ser do meu avô, até os gostos e o modo de estar. A verdade é que não me identifico com ninguém na família que conheço desde que me lembro de existir. E eras tu, avó, que me acalmavas a ânsia e curiosidade de o conhecer com as tuas histórias sobre o avô, o teu marido, sempre que reforçavam em conversa corrida o quanto éramos parecido e o quanto eu iria gostar de o ter conhecido. E sabes que mais? Fizeste-me querer que sim. Porque o avô sempre será a parte que me entenderia e faria sentir compreendida, mas tu, sem o saber, atenuavas a perda que eu sinto. E agora quem me vai contar as histórias que só tu sabes? Tenho tantas saudades das tuas gargalhadas repentinas à mesa durante a refeição. Tenho saudades que te rias das palermices que saem da minha boca sem qualquer filtro, e de todas as vezes que alinhavas nas minhas brincadeiras mesmo com os teus preciosos 90 anos de menina, como se tivesses a minha idade. Não sei como vou aprender, um dia, a lidar com a tu falta porque nem sequer consigo lidar apenas com a tua inatividade.

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