
Se estás a ler esta carta é porque morri mas também porque foste uma das estrelas da minha vida. Em morte não sei se vou ter estrelas mas não precisas de te preocupar, eu vou estar bem, porque não houve nenhum dia em vida que me sentisse incompleto. Tive gratitude suficiente para perceber que nunca temos tudo, mas também tive a força de vontade o suficiente para ter tudo o que quisesse. E aceitar o destino que nos espera após a nossa parte feita sem retaliações e desígnios para com o que aí vem, em qualquer circunstância, foi a minha salvação. Os remédios que o Dr. Alfredo me deu não me iam salvar nunca na vida, e tu sabias disso, só querias acreditar na fantasia de uma possibilidade efémera e singular como um milagre na medicina em tempo de peste negra. Impossível. Nem os milagres vão tão longe. Senti-mo-nos fracos e indefesos ao saber que não podemos controlar o destino, mas viver é aproveitar o sol e o vento que nos entrelaça o cabelo em nós, mesmo sabendo que o passo seguinte é uma constante incógnita e quanto mais cedo aceitarmos que a mudança faz parte daquilo que seremos amanhã, mais cedo conseguimos viver com o que somos hoje e rir do que fomos ontem.
Nem sempre fui feliz, nem estive sempre triste, mas quando o estava abraçava os dois estados com a mesma compaixão, com o mesmo olhar apreciativo - sentir amor, não é só dar as mão, ouvir umas palavras bonitas de alguém - aceitar sentimentos tão fortes como a plena felicidade e tristeza também é amor. Um amor muito maior. E é preciso termos a capacidade para nos sentirmos e mostrar-mo-nos confiantes dentro da nossa própria vulnerabilidade, porque se nunca tivesse tido o medo de arriscar a minha vulnerabilidade para obter o meu próprio amor, nunca teria tido um amor tão grande e tão leve como o nosso amor. E sabes que te amava tanto quanto me amava a mim - sempre que nos ouviam falar assim soava a mentiras por parecer tão fútil da minha parte. Mas tu sabias o quanto isso significava para mim e para ti. Por vezes aprendemos que devemos contabilizar não pela quantidade mas pela intensidade e se uma coisa que o nosso amor tinha era intensidade - nunca te esqueças disso. Eu gostava do lado da razão e tu do lado filosófico da vida, o que eu não sabia é que na maioria das vezes não se tratava de ter razão, mas da perspectiva em que vemos as coisas. Ensinaste-me que nada tem apenas um lado, uma justificação ou uma perspectiva e que cada um de nós escolhe uma idealização como a sua verdade por quererem acreditar exactamente naquilo que pensam que ouviram ou viram. A partir daquele dia abafado dissipado à beira do lago, percebi que podemos transformar o Mundo no lugar que quiséssemos, bastava acreditar que o era. A bondade e simpatia das pessoas estava nos nossos olhos e a alegria nos nossos pensamentos. Ter a esperança sobre o outro ajudou-me a ver o lado bom das pessoas e agradecia todos os dias por me teres transmitido este dom meu amor. Não existia beleza maior no Mundo do que sentir que a nossa energia positiva contagia alegria em outros e em ti. Vou-me sempre lembrar desse teu sorriso encantador que não deixava ninguém indiferente - não há como esquecê-lo.
Foi bom enquanto pude chorar e sorrir por aí. Vou ter saudades de viver e de ti. De todas as pessoas que amei, foste a que mais me custou deixar. Não por mim, mas temo por ti.
P.S.: Não te feches dentro de ti, permite que o Mundo te veja. Há tanto por ver, acredita (em ti).
Adorei! Tens imenso jeito para escrever!
ResponderEliminarObrigada! Elogios assim fazem-me realmente feliz porque a escrita tem um significado muito especial para mim!
EliminarBeijinhos