FASCÍNIO DO SER


Os carros passam. A chuva não pára.
Debruçada na janela
caída sob o céu escuro
encontro-me na plateia assistente ao drama
da minha própria vida.
Neste desassossego que me abate a alma
sinto falta de mais.
Sinto em mim uma depressiva mágoa
por cada estrela que não conto,
em cada luar que não aplaudo.
A tristeza de existirem noites que não me encantam
é um desespero que não aguento,
um abraço que não sinto.
Vejo-me de longe quem sou, onde vou
e o que quero em cada esquina de cada canto.
Vejo o meu passado por detrás da nuvem escura
e sinto uma presença que não conheço.
Mas sempre que tiver o que não conheço,
sempre vou querer mais para além do que vou sabendo.
A cidade não sabe o que vejo nem vê o que sinto.
Não tem espaço para os mortais
nem conhecimento para os vivos.
A cidade não é minha, a cidade não é de ninguém.
O senhor António passou no vermelho,
a multa não tarda e o elogio nunca vem.

O chá está quente. A preguiça incomoda-me.
A luz ficou acesa. O livro na cabeceira.
O gato veio de mansinho pedir mimo.
E lá fora já não chove.

4 comentários

  1. Que lindo poema, há noites assim bem tristes e parece que não passam as horas.
    https://retromaggie.blogspot.pt

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  2. Escreves tão bem Inês! Gostei muito de ler o teu texto :) Beijinhos

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