Intemporalidades


Algumas imensidões tornam-se pequenas, perto do que a nossa mente pode criar e contraditoriamente projetamo-nos a preto e branco por todo o lado. Projetamos bruscamente aquilo que não somos, quando o sangue nos enche os pulmões e nos bombeia aquilo que somos, enquanto as sombras que, constantemente, transpiramos se dispersam no que pensamos que devíamos de ser. E é nesta revira volta que equilíbrios estranhos se balanceiam numa estranheza comum e irreversivelmente habitável, nós próprios. A nossa essência é essa mesma, um conjunto de emaranhados que nos leva a bom porto mesmo quando o barco sai furado a meio caminho. Somos assim. O ser humano é assim, complicado por natureza, nascido dela, vivendo através dela. Somos pessoas estranhas, que estranhamente caem num mundo onde a estranheza é o ponto mais perigoso e o mais virtuoso, onde aprendermos a viver com essa irregularidade, que nos é dada logo de principio como garantida, com o vigor de que nos irão guiar de algum modo no sentido correto, com uma força que nos faz acreditar que realmente a veracidade é o pico da audácia. Estranho será então dizer que a força que nos move é a mesma estranheza incerta que fez acreditar os anteriores a nós, mesmo sabendo de princípio que o certo não é o totalmente correto e que o errado não é totalmente o pior, mas que apressamos a vida por instantes onde o correto que procuramos não existe por completo. Somos o que somos – vivemos dos espelhos que não temos, da braveza que não criámos, da genuinidade que nos rouba a genética. Somos sombras porque as palavras por si só são tão insuficientes que se fossem silêncios estaríamos cheios de vida e o tempo não bastaria para vomitar a cor de cada dia. Se fossemos silêncios, não seríamos nós.

A vida que somos é o caminho que não vemos e as palavras são o resumo dos silêncios que gritamos. É esta a estranheza com que aprendemos a lidar, porque das palavras se faz a vida, que numerosos sustentos temem e tantos outros alados desejam. A insensatez do contrário traduzir-se-à constantemente numa incógnita em torno da sombra que rabiscamos em folhas de papel velho - tudo se vê com os olhos, nem tudo se vive de olhares. E é assim, nada é tão certo vendo que da vida nascemos nós, filhos de mãe madrasta, progenitores da mentira. Se somos de mentira feitos, porque havíamos nós ser verdade se somos mentirosos. Somos por ser, vivemos por não sermos. São os fardos, o amontoar das velharias que nos torna pessoas, porque a magia está no olhar da desilusão da amargura terrena que nos corrói os ossos e por muito que não se pareça dá-nos a alma que nunca mais teremos em outro olhar. Mas prefiro encará-la como se dela se fizera uma flor, erguida em pétalas, forrada de folhas e tendo em seu suporte raízes com tamanho ignorante. Mesmo sabendo que a imaginação severa pode matar mais que as próprias palavras. 

O desejo sempre foi maior que a possibilidade imaginada, e quando o mar não corre no sentido da corrente, a vida morre nas pedras, encurralada. Porque os ânimos enlouquecem entranhas vazias da alma na esperança de que a imaginação seja realidade, para que os delírios não sejam apenas loucura de um Homem doente.

4 comments:

  1. Gostei de visitar o teu blogue. É muito real, e ao mesmo tempo nota-se todo o cuidado que tens com cada post

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  2. Gosh nês, escreves tão bem. Eu sinto a tua melancolia, entendo-a e não tenhas medo. Luta por ti.

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    1. (alterei o endereço do blog, caso queiras continuar a visitar o meu cantinho: https://des-culpas.blogspot.pt/)

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