Afogo-me em anatomias pálidas


Vida é coisa que não tenho, mas se vida for sentir já foi tempo que a tive, hoje nem a sinto por muito que queira. Por muito que cale, nem o silêncio me traz de volta a mim quando ando em volta dele e canso-me de não sentir. Se sentir for nada, sinto como se tudo fosse nada, mesmo sabendo que por vezes é tudo. E é-me tudo igual.

Alento a brisa que não passa, entre o nada e o acordada e é o silêncio que respiro. Não o penso apenas o sinto. Não o atento nem o desminto. Enquanto durmo e não adormeço, olho as estrelas. Sem nuvens, sem lua, sem barulho galaxiar. Vivo sobre o abalo desta vida, não por ser ou deixar de ser, apenas porque a incerteza me move em sentido nenhum e o tiro que a vida me deu, sou eu a bala. Onde quer que vá, onde quer que toque, expludo-lhes com os “miolos”. Quem sou eu? Uma bala, sou uma bala – Ou saem da minha frente ou morrem ou talvez morra eu se cair em mim. O meio-termo nunca me chegou nem aos calcanhares do suficiente. Ou é tudo ou não é nada e neste momento é mais nada que tudo. Não me sei encaixar deste modo, porque nem a vida gira para a direita nem para a esquerda, nem se torna certo nem errado, nem me deixa querer ou deixar de querer. Já foi tempo em que procurava a minha vida entre as frinchas da persiana, enquanto te via chegar apressado a um amor sem pressa de acabar no tempo. Se te sabia os passos decore e salteado. De trás para a frente e da frente para trás. Se te sabia o sabor a limão em cada beijo que me roubavas. Não te sei mais. Hoje vivo na incerteza de procurar a essência a que pertenço e consome-me o esplendor não saber como ser realmente. Tanto sou maresia como maré viva e sinto-me tão estranha por me encontrar enjaulada dentro de conceitos e preconceitos da mente que casualmente me torna incapaz, insuficiente e incrédula. O rumo nunca será o certo, a incerteza sempre será o refrão de um corpo semivazio e que constantemente se perde na obscuridade do sem sentido literal... Mas ainda assim tudo se torna tão pouco para se ser. Anacrónica – deveras o digo sim; Sei ser, onde não sou e quero estar onde nunca estou. Se um dia me vires passar, e se passar sozinha, de verdade não o sou nem o estou, tenho nenúfares de outrora na alma.

Caos em pessoa. Sou o maior caos, a minha cabeça é pior que uma bomba atómica, era capaz de acabar com dois Mundos iguais a este. Cada palavra que digo, na maioria das vezes, é como um tiro em ar seco e espingarda ao ombro marcando sentido às ordens. Não sou fácil de perceber, nem fácil de aturar – um reboliço de poeiras de guerra pairam da alma. Sou bomba relógio em constante contagem decrescente e sem aviso prévio de explosão. Continuo sem saber quem sou, nem sei se o quero saber, conhecer-me vira-me os pés para a cabeça. E então, nunca estou onde quero estar e isso já me basta para não saber nada. Já que nada sinto e nada vou sentindo, o melhor é não saber e saber que nada sou e nada sei.

Serei o caos ou a utopia?

A angústia de saber que sou alguém perdido entre milhões é o medo que as minhas palavras não tecem, nem em papel.

2 comments:

  1. Não te reconheço perdida entre milhões, mas vitoriosa numa única pessoa... em Pessoa... neste texto, evocaste em mim o maior dos Poetas...
    Assim sendo, alguém assim não pode ser ninguém... mas veículo para a imortalidade!

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  2. Conseguiste num texto explicar exactamente como me sinto. Não sei se é bom ou mau. Só sei que o que escreveste faz tanto sentido para mim. Obrigada.

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