SÓ SE ME DEREM PESADELOS


Três horas e trinta e três minutos.
Ao instante em que olhava o relógio de cabeceira o dia corria e a insónia aguentava-se insistente nas horas da madrugada que passava. E eu aqui sem pregar olho noite a dentro, contava minutos porque contar cordeirinhos já não me bastava, já nem aguentava. Era por demais a chuva que ouvi cair na calçada, a entoar no telhado, a escorregar pelas caleiras. Era por excesso o frio que cortava lá fora e o vento que me arrastava sons noturnos ao ouvido sem sequer me tocar. A melodia era bonita. Andava ele, na sua rota, aos tropeços do lado de lá da janela e eu do lado de cá permanecia na minha tempestade, desmaiada de olhos abertos. Ficava parada na esperança de fechar os olhos e conseguir dormir, mas os olhos rasgavam e eu balançava de um lado para o outro e quanto mais me mexia mais queria mexer. Mais rodava, encolhia e esticava os braços, mais remexia nos lençóis pela sensação de estarem tortos. Quanto mais me mexia, menos as pernas sossegavam encolhidas e juntas. Remexiam-se de cima para baixo, para os lados e o tempo não parava nem eu dormia. A esperança diminuía a cada minuto certo da sua incerteza, que passava sem acabar com a minha insónia. Ficava parada na esperança de me mexer para não terminar com a madrugada que me acompanhava a solidão. Não queria cair em sonhos pouco reais mas queria dormir. Não queria ver imagens durante o meu sono, mas continuava a querer dormir. Se me derem pesadelos eu deixo que me tirem o nascer do sol, o peso dos pensamentos mais conscientes, o crescer do dia que se aproxima e a chegada de mansinho da luz por entre as frinchas da minha janela. Mas só se me derem pesadelos. Os sonhos sempre serão para os fracos e para vidas feitas, não tiro verdades de mentiras, não consigo sequer ouvir estrelas em desejos mortos. E como pesadelos não me dão, prefiro não dormir em esperanças falsas, prefiro ver estrelas em céus azuis-escuros do que em fundos pretos e inanimados.

Quatro horas e quarenta e quatro minutos.
Metade do caminho já estava feito, e a meta cortava-se daqui a outra metade. E eu sentia-me a menos de metade de mim. O silêncio nunca me encheu tanto sem me consumir tão pouco, a minha alma não estava no meu corpo… Nunca a quis menos como agora mas o meu corpo procurava-a a passos largos. Já me levaram tudo, já me tiraram de mim e do sério, só me restava a alma porque sempre tive medo da miséria interior, então guardei-a longe do perigo, de mim e dos que poderiam vir. Costumam dizer que “quando não conseguimos dormir é porque estamos acordados no sonho de alguém” e logo eu que vivo a escapar de encontros planeados à espera de encontros casuais – o desconhecido que me levou que me devolva, porque já não tenho medo. Podem levar-me tudo, não escondo mais o pouco que me resta, mas, pelo menos, só peço que não me levem em sonhos, se for para me levarem que me levem para guerras ou para tentativas falhadas, que me levem e que não me devolvam às origens, porque quando me levarem não vou querer mais voltar.

Cinco horas e cinquenta e cinco minutos.
Sempre te quis às 6h da manhã, sempre te quis a qualquer hora, mas especialmente a esta. O problema é que nem sequer sei quem és como poderei ter-te ou saber que também me quereres, por perto, à mesma hora. Como poderei saber que existes pelo mundo quando não me dás sinais da tua existência querer a minha dentro da tua. Só na tua presença conseguirei sobreviver a estas madrugadas que me carregam os ombros pela solidão que me trazem ao pensamento. Vivo assim, na incerteza de não te conhecer e amar-te como ninguém sem nunca te ter posto a vista em cima – aposto que tens um sorriso meigo e um jeito medonho de olhar nos olhos enquanto falas, uma frescura nas palavras de ocasião e nas de afeto; aposto ainda que serás mais do que eu e tudo o que eu não serei capaz. Já te amo e ainda não sei quantos sinais trazes na face, quantos livros carregas na tua mala para interromper o tempo vazio, se é que os carregas, não sei quantas qualidades tens e quantos defeitos não tens, mas sei que te amo assim, e isso já me enche, e isso já me chega (por enquanto). E como poderei eu esquecer as vezes que te tento descobrir em histórias inventadas ou em qualquer alternativa possível de te conhecer. Não esqueço. Vivo outros amores na tentativa erro de te vir a conhecer por engano ou desespero, só não sei quanto mais tempo aguento neste jogo de quem é quem, sem saber quem és tu.

Seis horas e meia.
Sete horas em ponto batiam em cheio no relógio.

Pouco depois, a meta já se cortava, eram oito horas da manhã e uma vida por fazer, mais um dia por fechar.

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